O momento que senti vergonha do Brasil

Junho 29, 2014 at 7:07 pm

Antes de você começar a ler este texto e se interessar, deixe me lhe falar que sou uma despatriada. Moro fora do país faz mais de dez anos. Vim para ficar pouco tempo, acabei me apaixonando (não necessariamente pelo meu novo país, mas pelo pai dos meus filhos) e aqui estou até hoje. Gostaria de fazer este esclarecimento porque você pode achar que eu não tenho direito nenhum de fazer comentários a respeito do Brasil e eu respeito e até concordo com sua opinião. Então se você quiser continuar lendo este texto saiba: eu moro fora do Brasil!

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Ontem estava dando uma olhada no facebook pela noite. Entre vários posts sobre o jogo difícil contra o Chile e a alegria da vitória, um post saltou da tela: um conhecido de anos estava pedindo oração e ajuda financeira para sua filhinha de poucos dias. A bebe está doente e precisa de uma vaga na UTI de uma grande cidade do Brasil e não havia leitos disponíveis em nenhum dos hospitais da cidade. A gente sabe que isso acontece todo dia, mas quando você vê um bebezinho pequenininho precisando de tratamento e a resposta é “não temos vagas” bate uma indignação. Não sei se é porque conheço o pai da menina, ou se é porque tenho um bebê também, mas fico me colocando na situação daqueles pais: o sentimento de impotência, de frustração. Sei que Deus está cuidando daquele bebê e daquela família, mas sei lá, dá a impressão de que as coisas estão erradas, e muito erradas no nosso amado Brasil. Embora tenha muito orgulho das minhas raízes, tente sempre falar do nosso país de uma forma positiva e ame profundamente o  Brasil – sempre converso das coisas boas do nosso país com meus filhos e os ensino nossa língua materna, – senti vergonha quando começei a pensar naquela criança e tantas outras que estão em situação semelhante.

Obviamente você que acompanha este blog deve estar perguntando: achei que este blog era sobre família e criação de filhos, agora a Tathi vai começar a falar sobre política? Não! Não tenho a mínima intenção disto. E não estou entrando aqui no mérito de quem é o culpado, se este governo ou os governos passados, se é o povo ou a elite. Nem tão pouco discutir sobre os benefícios e prejuízos da copa ou se você deve ou não apoiar a seleção. Estes assuntos seriam demasiadamente complexos para uma  dona-de-casa  não tão bem informada  como eu. Mas confesso que ontem quando fui dormir, depois de ver este post no facebook, fiquei um bom tempo rolando na cama de um lado pro outro, e acordei com um desejo enorme de escrever sobre minhas reflexões sobre o assunto, de como toda essa situação do país também está ligada com nossa vida familiar e nossa vida como indivíduos.

Prioridades são prioridades: Amo futebol, sou flamenguista de coração! Meu irmão que o diga: quando era adolescente, muitas vezes saímos literalmente na pancada por causa de times. Lembro da brigas que tive com um vizinho são paulino. Eu era a mais apaixonada de todos, e não deixava os moleques tirarem sarro do meu time. Acho muito legal futebol, a alegria, a sensação de adrenalina e o sentimento gostoso que uma vitória nos proporciona. Mas quer saber de uma coisa? Nessas horas, tenho que deixar a emoção de lado, usar minha razão e dar ao esporte o devido lugar dele: um lazer, uma recreação. Me desculpem os amantes do esporte mas futebol não é mais importante do que escolas decentes para as crianças, rodovias bem cuidadas e um leito na UTI para um bebê recém-nascido. Da mesma forma, existem muitas coisas na nossa vida familiar e pessoal que são legais mas elas não são mais importantes do que as reais prioridades. Seria certo ter um carrão na garagem enquanto dentro da geladeira não tem leite para os pequenos? Jesus disse bem: “Não é certo tirar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos”.  Mateus 15:26 E Não estou falando só do material, mas também do emocional, do carinho e da atenção.

O quanto desejamos mudança? Minha segunda pergunta é: quão importante é a mudança para nós? Estamos nós dispostos a pagar o preço que é necessário pra que haja mudança?  Tantas vezes dizemos que gostaríamos que nossa família fosse diferente, nossos hábitos fossem diferente, mas na verdade falamos só da boca pra fora, pois não estamos dispostos a mudar nossas atitudes pra que isso aconteça. Queremos um casamento melhor mas ficamos sempre esperando que o marido mude, que ele seja diferente! Queremos ter um bom relacioanamento com nossos pais mas nunca liberamos perdão por aquele erro que eles cometeram há 10 anos atrás e assim vai… Da mesma forma, queremos um Brasil diferente, um novo país. Mas estamos dispostos a abrir mão daquela vaga especial que um político conhecido nosso conseguiu por debaixo dos panos? Estamos dispostos a escolher nosso voto não só baseado no que é melhor pra mim mas o que é melhor para todo o coletivo? Estamos dispostos a não sonegar impostos, a não subornar o policial, a não tirar vantagem de tudo? Nosso desejo de mudança é tão grande ao ponto de inicialmente termos que passar por algumas perdas pra que nossa família seja transformada, pra que nosso país seja mudado? É fácil escrever um texto destes, como eu o faço, dizendo que queremos um futuro melhor pra nossa nação. É fácil criticar no facebook, é fácil pedir uma oração a um amigo para que nosso casamento seja salvo (não que isto não seja necessário), mas  e na hora de mudar nossas atitudes, estamos dispostos? A mudança começa em nós. Parece cliché, mas ensinemos nossos filhos que o certo é o certo mesmo que ninguém o faça, e o errado é errado mesmo que todo mundo faça. Estejamos firmes nas nossas convicções, estejamos dispostos a pagar o preço da mudança mesmo sabendo que muito provavelmente não veremos em vida o resultado completo do nosso trabalho. E isso não é fácil! Quantas vezes me questiono se eu estivesse em uma posição de  poder, será que eu teria convicções e temor  de Deus grandes suficientes para fazer o que é certo, mesmo podendo tirar vantagem de minha posição?

Existe esperança: Estes dias fui visitar o museu de Martin Luther King, que fica na cidade onde moro. Fiquei chocada com as cenas que vi, dignas dos piores filmes de terror. Pessoas da raça negra sendo torturadas e mortas sem motivo algum, mas simplesmente porque os brancos achavam que eram superiores. Por outro lado, saí extremamente esperançosa de ver como um homem simples, um pastor, aparentemente sem poder nenhum, foi instrumento de uma reforma pacífica (não perfeita, porque isto não existe) que transformou a história do país. Claro que ainda existem resquícios de preconceito mas que as mudanças existiram e foram enormes isto é óbvio. Da mesma forma, tenho esperança! Tenho esperança de que cada um de nós pode ser um pequeno núcleo de mudança no lugar onde estamos. Que podemos ser a mudança que nossa família precisa, podemos ser a mudança no nosso ambiente de trabalho, na nossa escola, enfim, no nosso grupo de influência. Minha oração para este dia é que cada um de nós seja a mudança que nós gostaríamos de ver na sociedade! Também oro para que homens e mulheres como Martin Luther King se levantem em nosso país, líderes de influência, que estão dispostos a pagar o preço da mudança, que estão dispostos a lutar por algo maior do que eles mesmos, como aconteceu com Martin Luther King. Meu desejo é que, mais do sermos hexacampeões mundiais,  nosso gigante pela própria natureza seja uma mãe gentil para seus filhos, especialmente os mais frágeis, como cantamos com tanto orgulho no nosso hino nacional antes de cada partida!

 

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